segunda-feira, 12 de julho de 2010

SUTRA DA MENTE E DO CORAÇÃO (Hrdaya Sutra) Comentários do Mestre Han Shan (1546-1623)

Tradução para o português de Wu-ming  (1947-    )

INTRODUÇÃO


De acordo com a Escola T’ien T’ai (Tendai), os cinco períodos de ensinamento do Buda, são:
1. O Avatamska ou primeiro período, em três etapas, de sete dias cada,após Sua iluminação, quando Ele expôs esse longo sermão.
2. Os doze anos em que Ele expôs os Àgamas (quatro tratados da doutrina
Hinayana: o Dirgagama ou Tratado Longo, o Madyamagama ou Tratado
Médio, o Samyuktagama ou Tratado Variado, e o Ekottaragama ou Tratado
Numérico) no Parque do Cervo.
3. Os oito anos em que Ele expôs as doutrinas Hinayana e Mahayana juntas,
chamado período Vaipula.
4. Os vinte e dois anos em que Ele expôs os Sermões (Sutras) da Sabedoria (Prajnã).
5. Os oito anos em que Ele expôs o Sermão do Lótus; e, em um dia e uma noite, o Mahaparanirvana Sutra.

O Sermão (Sutra) do Coração (Hrdaya), agora apresentado aos Budistas ocidentais, é a síntese dos vinte e dois anos de ensinamento dos Prajnã-Sutras, no qual alguns milhões de caracteres chineses foram condensados em apenas duzentos e sessenta e oito ideogramas, incluindo o título. Conseqüentemente, o Sutra é de muito difícil compreensão, mas com o comentário esclarecedor do Mestre Ch’an Han Shan, escrito após a sua própria iluminação, torna-se muito mais fácil compreendê-lo, especialmente para aqueles que tem algum conhecimento da doutrina Mahayana. Sua finalidade é apagar todos os traços da ilusão criada pelas cinco funções, os seis órgãos dos sentidos, os seis objetos dos sentidos, as seis consciências, os dezoito planos dos sentidos, os doze elos da cadeia da existência, os quatros dogmas, e, finalmente, até os conceitos de sabedoria e retribuição, e desta forma desligar a mente de todos os dualismos, que não são senão uno na sua própria-natureza e para os quais não há lugar na Realidade Absoluta. Quando a mente é libertada de todos os conceitos duais, a própria mente desaparecerá ao ser reintegrada a sua natureza fundamental. Essa é a realização da verdade ou a obtenção da iluminação (Bodi).
O texto do Sutra trata da teoria e sua Mantra ensina o método de prática. A mantra é comparada com o hua-t’ou inventado pelos mestres Ch’an para deter a cadeia infindável de pensamentos, e se é mantida na mente a cada momento e em todo lugar, permitirá ao praticante desligar-se de todas as ilusões e desvendar a sabedoria absoluta inerente em si mesmo. A sabedoria é como uma espada afiada que corta todos os obstáculos no caminho da libertação. Como o mestre Han Shan disse, não existe nenhum outro método capaz de superar o ensinamento deste pequeno Sutra.
Nesta tradução, eu utilizei os termos em inglês seguidos de seus equivalentes em Sânscrito, entre parênteses, porque os primeiros não abrangem todo o significado dos últimos. Há também notas explicativas que esclarecem o significado de cada termo em Sânscrito.
Ao longo desta tradução, no lugar da palavra “Mente” utilizei a palavra “Coração”, para estar de acordo com o título e com o texto, já que “Coração” é o equivalente do que é chamado “Mente” no Ocidente.
Na China, ambos, o Sutra do Diamante e o Sutra do Coração são publicados juntos, o primeiro precedendo o segundo e os Budistas Chineses quando recitam um, também recitam o outro. O Sutra do Coração Chinês difere do Sutra do Coração Tibetano em que este último contém uma frase de abertura e uma frase de fechamento. A despeito desta pequena diferença, o significado profundo é o mesmo em ambos os Sutras.

UPASAKA LU K’UAN YU
Hong Kong, 30 de Novembro de 1957


Nota do Tradutor para o Português
Em chinês o ideograma “hsin” significa mente e coração, já que na concepção chinesa eles são duas partes do mesmo órgão e portanto se complementam e não se opõem . No Ocidente a mente se opõe ao coração, por isso dizemos: “Você agiu com a cabeça (mente) e não com o coração”; ou, “Você agiu com o coração e não com a cabeça (mente)”, o que caracteriza claramente a oposição entre uma ação racional e uma ação emocional. Por querer permanecer fiel ao significado etimológico do termo, Lu Kuan Yu optou por traduzir o termo “hrdaya” como “coração” no lugar de “mente” . Entretanto, esta é uma questão crucial para a interpretação do texto no Ocidente, já que, independentemente de considerações etimológicas, para o pensamento ocidental o que Buda expôs neste Sermão foi a teoria e a prática para aquietar a mente. Provavelmente a tradução mais correta seria o Sutra da Mente e do Coração, mas para o leitor ocidental esta opção tornaria a sua leitura e interpretação confusa. Assim, na tradução para o português, optamos pelo termo “mente” no lugar de “coração”, acreditando que desta forma estamos sendo fieis ao verdadeiro sentido do Sermão.

WU-MING
Rio de Janeiro, 15 de Dezembro de 2005.

PRAJNÃ PARAMITÃ HRDAYA SUTRÃ
Comentário do Sutra da Mente
pelo Mestre Ch’an Han Shan


No título, Prajnã significa “sabedoria” e Paramitã “alcançando a outra margem”.
O mundo (Samsara: o mundo de infindáveis nascimentos e mortes) dos tristes destinos é comparado a um grande oceano aonde os apegos e os pensamentos não chegam a nenhuma margem. Eles são ignorantes e não sabem que as ondas de suas consciências (vijnana: as cinco consciências dos sentidos são a visão, a audição, o olfato, o gosto e o tato; mano-vijnãna, a sexta consciência, é a do intelecto; klista-mano-vijnãna, a sétima consciência, é a da discriminação; e, ãlaya-vijnana, a oitava consciência, é a do inconsciente) batem alto e são a causa da ilusão e das ações cármicas (adjetivo derivado da palavra carma: ações e efeitos relacionados às formas de transmigração) que resultam na infindável cadeia de nascimentos e de mortes. Seu sofrimento é inexaurível e são incapazes de atravessar o amargo oceano da mortalidade. Por isso é chamada “esta margem”.
Nosso Buda utilizou a luminosidade de sua grande sabedoria para iluminar e extinguir os apegos causados pelos seis objetos dos sentidos (gunas) e pôr um fim aos sofrimentos para sempre. Isto leva à completa eliminação dos dois tipos de morte (a natural e a violenta) e a um salto por sobre o oceano de sofrimento para a realização do Nirvana (Nirvana: o fim do ciclo de reencarnação com seu concomitante sofrimento e a entrada no plano transcendental da verdadeira permanência, felicidade, personalidade e pureza). Por isso é chamada “a outra margem”.
A mente (Hrdaya) mencionada no título é a mente da grande sabedoria (Prajnã) que alcança a outra margem. Não é a mente humana com a que os homens leigos desenvolvem o pensamento equivocado. O ignorante não sabe que ele possui, fundamentalmente, a Mente da brilhante luz da sabedoria. Ele considera como real a massa de músculos entranhada na carne e nos ossos: o que ele reconhece são apenas as sombras produzidas pelo pensamento equivocado e o apego estimulado pelas circunstâncias. Conseqüentemente, o corpo de carne e ossos é falsamente considerado como sua possessão e é usado para praticar todo tipo de ações erradas. Assim, os pensamentos se sucedem um após outro numa cadeia incessante e sem que nenhum deles consiga virar a luz sobre si-mesmo para o autoconhecimento. Com o acúmulo infindável de nenhuma outra coisa a não ser carma e sofrimento, desde o nascimento até a morte, e desde a morte até o nascimento seguinte; como seria possível conduzir a si-mesmo através do oceano da mortalidade? Apenas Buda, que era um santo (arya), estava ciente da verdadeira sabedoria fundamental, que pode iluminar e extinguir o corpo e a mente dos cinco agregados (skandas: a forma [rupa], a sensação [vedanã], a conceituação [sanjnã], a discriminação [samskãra], e a consciência [vijnãna]) que são fundamentalmente não-existentes e cuja substância é totalmente vazia. Desta forma, Ele pulou por sobre a aparência e alcançou a outra margem instantaneamente, assim cruzando o oceano da amargura. Como sentiu pena dos homens iludidos, utilizou essa porta do Darma para a iluminação, que Ele tinha experimentado pessoalmente, para revelá-la e guiá-los, de forma que cada ser humano estivesse ciente que sua sabedoria era fundamentalmente de si-próprio, que seus pensamentos equivocados eram basicamente falsos, que seu corpo e sua mente eram totalmente não-existentes, e que o universo não era nada mais do que um processo de transformação. Assim, para evitar a prática de ações ruins e para escapar do Samsara, Ele pularia por sobre o oceano de sofrimento e alcançaria a felicidade. Por isso, Ele expôs este Sermão (Sutra).
Sermão é a palavra e o ensinamento do Santo e a Lei Eterna (Darma).

“Quando o Bodisatva Avalokitesvara praticou a Prajnãpãramitã profunda, ele investigou e percebeu que os cinco agregados (skandas) eram não-existentes e impediam sua libertação da desgraça e do sofrimento.”

O Bodisatva era alguém que praticava (o sujeito) e a Prajnãpãramitã profunda era o Darma praticado (o objeto). A investigação e a percepção da não-existência das cinco funções eram o método de prática. A libertação de todas as desgraças e sofrimentos era o resultado da prática.
Depois de ouvir do próprio Buda sobre essa Prajnã profunda, esse Bodisatva refletiu sobre ela e praticou-a, utilizando sua sabedoria para examinar as cinco funções, que são vazias, tanto interna como externamente, resultando na percepção de que o corpo, a mente e o universo não existem realmente, num pulo repentino sobre o mundano e o supramundano, na completa extinção de todos os sofrimentos e na obtenção da independência absoluta. Como esse Bodisatva pôde livrar a si mesmo através desse Darma, todos os outros homens também poderiam confiar nele e praticá-lo.
Por essa razão, O-Honrado-Pelo-Mundo (um dos muitos nomes do Buda) propositadamente se dirigiu a Sariputra, apontando o maravilhoso feito de Avalokitesvara, sobre o qual Ele queria que os outros soubessem. Se nós praticarmos a mesma contemplação, nós perceberemos no ato que nossas mentes possuem, basicamente, a luminosidade da sabedoria, tão vasta, extensa, e penetrante, que ilumina as cinco funções, que são fundamentalmente vazias, e os quatro elementos, que são não-existentes.
Depois dessa realização; onde ficariam os sofrimentos que não pudessem ser extintos? Onde ficariam as algemas que pudessem algemar? Onde ficariam os argumentos obstinados sobre o ego e a personalidade, e sobre o certo e o errado? Onde ficariam as discriminações entre o sucesso e o fracasso, e entre o ganho e a perda? E onde ficariam os apegos tais como, riqueza, honra, pobreza e desonra? Este era o verdadeiro resultado do estudo da Prajnã desse Bodisatva.
Os cinco agregados são: a forma (rupa), a sensação (vedanã), a conceituação (sanjnã), a discriminação (samskãra), e a consciência (vijnãna). A investigação é o resultado da Prajnã que pode contemplar (sujeito) e dos cinco agregados que podem ser contemplados (objeto). A conclusão de que os cinco agregados são vazios prova o real poder deste método.

“Sariputra!”

Este era o nome de um discípulo do Buda. Sari é o nome de um pássaro de olhos brilhantes e aguçados. A mãe do discípulo tinha os mesmos olhos brilhantes e aguçados, sendo por isso apelidada com o nome do pássaro. Daí o nome do discípulo que era filho da mulher que tinha olhos de sari. Dentre os discípulos do Buda, ele era o mais inteligente. Esta porta do Darma era a mais profunda e somente aqueles de grande sabedoria poderiam apreendê-la e realizá-la. Conseqüentemente, Sariputra foi propositadamente o escolhido, para ressaltar o fato de que essa conversa só poderia ser ouvida por um ouvinte muito inteligente.

“A forma (rupa) não difere do vazio (sunya), nem o vazio da forma. A forma é idêntica ao vazio e o vazio é idêntico à forma. Da mesma forma o são a sensação (vedanã), a conceituação (sanjnã), a discriminação (samskãra), e a consciência (vijnãna) em relação ao vazio (sunya: vazio, vacuidade, não-existente).”

(Rupa: forma, matéria, as formas físicas relacionadas aos cinco órgãos dos sentidos. Vedanã: recepção, sensação, a faculdade da mente ligada aos órgãos dos sentidos. Sanjã:concepção, conceituação, a faculdade da mente ligada ao processo de formar idéias. Samskãra: discriminação, a faculdade da mente ligada ao processo dialético, bem e mal, aceitação e rejeição, etc. Vijnãna: a faculdade da mente ligada ao processo de separação do “eu” dos outros).
Isto foi dito a Sariputra para explicar o significado da vacuidade dos cinco agregados. Dos cinco agregados, a forma foi apontada primeiro. Essa forma é a aparência (laksana) do corpo humano à qual o homem se apega como se fosse sua possessão. É produzida pela cristalização do seu persistente e resistente pensamento equivocado. É causada pela manutenção do conceito de ego (o “eu”), que é o mais difícil de extinguir.
Agora, no começo da meditação, muita atenção deverá ser prestada ao corpo físico, que é uma combinação imaginária dos quatro elementos e que é fundamentalmente não-existente. Como sua substância é completamente vazia, por dentro e por fora, não se está confinado dentro deste corpo e não há, conseqüentemente, nenhum impedimento em relação ao nascimento e à morte, nem ao ir nem vir. Este é o método da extinção do primeiro agregado, a forma. Se a forma é extinta, os outros quatro agregados podem, do mesmo modo, ser submetidos à mesma introspecção profunda.
O ensinamento sobre a forma (rupa) que não difere do vazio (sunya) tinha o propósito de extinguir a idéia do homem leigo de que a personalidade (os outros) é permanente. Como os homens leigos acreditam que o corpo físico é real e permanente, eles fazem planos para daqui a um século, sem perceber que o corpo é irreal e não-existente, está sujeito às quatro mudanças (nascimento, envelhecimento, doença e morte), instante após instante, sem interrupção até a velhice e a morte, com o resultado final de que é impermanente e finalmente retorna ao vazio. Este ainda é o vazio relativo, em relação ao nascimento e à morte e ainda não alcança o limite da Lei Fundamental (isto é, o vazio absoluto). A forma ilusória criada pelos quatro elementos não difere, basicamente, do vazio absoluto. Como os homens leigos não sabem disso, Buda disse: “A forma (rupa) não difere do vazio (sunya)”, significando que o corpo físico fundamentalmente não difere do vazio absoluto.
Quando o Buda disse: “O vazio (sunya) não difere da forma (rupa)”, sua intenção era extinguir o conceito de aniquilação (ucchedadarsana: a idéia de que a morte acaba com a vida, em oposição à idéia de que a personalidade [os outros] é permanente, ambas idéias heterodoxas) defendido pelos heréticos, os Sravakas (Sravaka: um ouvinte, discípulo do Buda, que compreende os quatro dogmas, livra a si-mesmo da irrealidade do mundo dos fenômenos e entra no Nirvana Incompleto) e os Budas Pratyeka (Pratyeka Buda: alguém que vive isolado dos outros e que alcança a iluminação sozinho).
Na sua prática, os heréticos não percebiam que o corpo físico era criado pelo carma e que o carma era produzido pela mente, resultando num movimento ininterrupto da roda giratória através dos três períodos do tempo (passado, presente e futuro). Isto era por causa do desconhecimento do princípio de correspondência entre a Causa e o Efeito nos três períodos do tempo. Eles achavam que após a morte, o vapor puro (alma pura) retornava ao Céu e o vapor impuro (alma impura) retornava à Terra, e a natureza espiritual real voltava para o espaço. Se esse ponto de vista fosse correto não haveria nenhuma Lei da Retribuição. Assim, as boas ações seriam em vão e as más ações seriam recompensadas. Se a natureza espiritual voltasse ao espaço, as boas e más ações não teriam nenhum efeito e desapareceriam por completo sem deixar nenhum vestígio para trás. Se assim fosse; que desgraça em verdade! Confúcio, disse: “Sendo a alma errante uma transformação, a condição dos fantasmas e dos espíritos pode ser conhecida”. (Uma frase de Confúcio que o mestre Han Shan costumava citar aos seus discípulos que eram Confucionistas). Isto prova que a morte não é a aniquilação e que a lei da retribuição e transmigração é muito clara. Os homens leigos não fazem nenhuma introspecção neste sentido e nada é mais falacioso do que sua idéia arbitrária de aniquilação.
Em relação aos Srãvakas e Budas Pratyekas, embora praticassem os ensinamentos de Buda, eles não percebiam que o mundo tríplice (mundo do desejo, mundo da matéria e mundo da não-matéria) era criado apenas pela mente, e que todas as coisas eram produzidas pela consciência (vijnana). Eles não percebiam que o nascimento e a morte eram como uma ilusão e uma transformação. Para eles, o mundo tríplice realmente existia. Eles viam esses mundos da existência como prisões e sentiam repugnância pelos quatro tipos de nascimento (do ovo, da barriga, da umidade e da transformação) que eles consideravam algemas reais. Eles não desenvolviam nenhum pensamento sobre a libertação dos seres vivos e permaneciam imersos no vazio e estagnados na quietude. Como eles estavam empenhados na quietude e na extinção, ou Nirvana Incompleto, o Buda disse: “O vazio não difere da forma”. Isto significa que o vazio absoluto não é fundamentalmente diferente da forma ilusória, e portanto não é o vazio relativo e aniquilante que se opõe à forma. Esta frase mostra que a Prajnã é o absoluto Vazio da Realidade. Por que? Porque o absoluto Vazio da Prajnã é comparado com um grande espelho em que todas as formas da aparência se refletem. Quando se percebe que todas essas reflexões não estão separadas do espelho, compreender-se-á, instantaneamente, o significado da frase: O vazio (sunya) não difere da forma (rupa). Seu propósito era extinguir a falsa idéia defendida pelos Srãvakas e pelos Budas Pratyekas de um vazio relativo e aniquilador em oposição à forma, e das idéias equivocadas concebidas pelos heréticos em relação à vacuidade do vazio.
Como Ele estava apreensivo de que os homens leigos considerassem as palavras forma e vazio como duas coisas diferentes e, apesar de sua mesmice, eles poderiam não ter uma mente imparcial na sua contemplação, Ele igualou a forma e o vazio na frase: A forma (rupa) é idêntica ao vazio (sunya) e o vazio (sunya) é idêntico à forma (rupa).
Por meio da contemplação correta praticada dentro dos conformes e com a realização de que a forma não difere do vazio, não haverá mais procura por som, forma, riqueza e ganho e nenhum apego aos cinco desejos (que resultam dos objetos dos cinco sentidos: coisas vistas, ouvidas, cheiradas, gostadas e tocadas). A finalidade é a libertação instantânea dos homens leigos do sofrimento.
Se o vazio é considerado idêntico à forma aparecerá o comportamento que inspira respeito (dignidade: andando, parado, sentado e deitado) sem interferência com a condição de Samadi; haverá a permanência no vazio a despeito da efervescência de todas as formas de salvação; e, haverá contato com o existente enquanto o Caminho Único (isto é, a natureza do Buda) permanece puro e imaculado. Tudo isso é o salto instantâneo por sobre todos os apegos dos Sravakas e Budas Pratyeka.
Se a forma e o vazio são considerados iguais, eles estarão na condição da mesmice universal; nenhuma visão de seres vivos sendo libertados, a despeito de cada pensamento estar voltado para a libertação dos seres vivos; e nenhum fruto do Buda a ser alcançado, a despeito do fato da mente estar totalmente ocupada com a questão da Budeidade. Essa é a perfeição completa da Mente Única sem nenhuma idéia de obtenção de sabedoria ou de retribuição. É um salto por sobre o estágio de Bodisatva na ascensão instantânea para o estágio do Buda. Essa é “a outra margem”.
Se a forma é contemplada da maneira correta, os outros quatro agregados se alinham com o pensamento correto e também alcançam a perfeição completa. Isto é exatamente como a “libertação dos seus órgãos dos sentidos após que um deles retornou à origem” (isto é, a Realidade Única). (Citação do Surangama Sutra, resumo da instrução dada por Manjusri a Ãnanda por ordem e na presença do Buda). Essa é a razão pela qual, o Buda disse: “Da mesma forma o são a sensação (vedanã), a conceituação (sanjnã), a discriminação (samskãra) e a consciência (vijnãna), em relação ao vazio (sunya).”
Se o acima descrito pode ser feito, todos os sofrimentos serão extintos instantaneamente, o fruto de Buda será alcançado e a outra margem não estará longe. Isto só depende do adepto, que no tempo que demora um pensamento pode alcançar a contemplação correta da Mente. Não é tal Darma muito profundo?

“Sariputra, o vazio (sunya) de todas as coisas não é criado, nem
aniquilado; nem puro, nem impuro; nem crescente, nem decrescente”.


Como Ele receava que os homens leigos pudessem usar suas mentes samsáricas para interpretar equivocadamente este Darma Real da Prajnã Verdadeira do vazio absoluto, incluindo nele também o Darma do nascimento e da morte, da pureza e da impureza, e do acréscimo e do decréscimo, o Buda chamou Sariputra e explicou-lhe que o Darma da Realidade do vazio absoluto não era o darma do nascimento e da morte, da pureza e da impureza, e do acréscimo e do decréscimo, uma vez que este último darma pertence ao plano dos sentimentos e dos conceitos dos seres vivos. A substância da Realidade da Prajnã Verdadeira do vazio absoluto é, fundamentalmente, completamente pura e imaculada, como o Espaço, e é o Darma supramundano. Por essa razão, Ele usou a negação não para rejeitar a idéia de que o vazio de todas as coisas é criado ou aniquilado, puro ou impuro, crescente ou decrescente e para revelar que as cinco funções são, fundamentalmente, nada mais do que o vazio absoluto, assim apagando completamente todos esses equívocos, um por um.

Conseqüentemente, no vazio (sunya) não há nenhuma forma (rupa), nenhuma sensação (vedana), nenhuma conceituação (sanjna), nenhuma discriminação (sanskara), nem nenhuma consciência (vijnãna); não há nenhum olho, ouvido, nariz, língua, corpo, nem mente; não há nenhuma forma, som, cheiro, gosto, tato, nem idéia; não há nenhum dos dezoito planos dos sentidos (dhãtus), desde o plano da visão até o plano da mente; não há nenhum dos doze elos na cadeia da existência (nidãnas), desde o plano da ignorância (avidyã), inclusive o fim da ignorância, até a velhice e a morte, inclusive o fim da velhice e da morte; não há nenhuma das quatro verdades nobres; e não há nenhuma sabedoria, nem nenhuma retribuição”.

Essa é uma explicação exaustiva da Prajnã, para que não haja nenhum equívoco. O vazio real da Prajnã pode acabar com todos os equívocos e como é puro e limpo e não contém uma única coisa, dentro dele não há nenhum traço dos cinco agregados (skandas); não somente não há nenhum traço dos cinco agregados, como também não há nenhum dos seis órgãos dos sentidos; não somente não há nenhum dos seis órgãos dos sentidos, como também não há nenhum dos seis objetos dos sentidos (gunas); e não somente não há nenhum dos seis objetos dos sentidos, como também não há nenhuma das seis consciências (vijnãna). Todavia, o plano dos seis órgãos dos sentidos, dos seis objetos dos sentidos e das seis consciências é o Darma dos homens leigos. Não há lugar para essas coisas no vazio absoluto da Prajnã. Por isso, o Buda disse que todas essas coisas não estão no vazio absoluto. Ele está, portanto, além do Darma dos homens leigos. Entretanto, dentro da Prajnã, não somente não há nenhum Dharma dos homens leigos, como também não há nenhum Darma dos homens santos (arya).
As quatro verdades nobres, os doze elos da cadeia da existência e as seis perfeições (paramitãs) formam o Darma supramundano dos santos dos Três Veículos.
As quatro verdades nobres, o sofrimento (duka), o acúmulo do sofrimento (samudãya), a extinção do sofrimento (niroda) e o caminho (marga) implicam na aversão ao sofrimento, na destruição do acúmulo de sofrimento, no desejo de extinção do sofrimento e na prática da doutrina do caminho; e constituem o Darma dos Srãvakas.
Os doze elos na cadeia da existência são: da ignorância à disposição; da disposição à consciência; da consciência ao nome e a forma; do nome e a forma, aos seis órgãos dos sentidos; dos seis órgãos dos sentidos ao contato; do contato à sensação; da sensação ao desejo; do desejo ao apego; do apego à existência; da existência ao nascimento; e do nascimento ao envelhecimento e à morte. Estes doze elos são idênticos com as primeiras duas verdades nobres: o sofrimento e o acúmulo de sofrimento.
A finalidade dos doze elos na cadeia da existência, desde a ignorância até o envelhecimento e a morte, é a porta da extinção, e são idênticos às duas últimas verdades nobres: a extinção do apego e o caminho. Este é o método completo da contemplação dos Budas Pratyekas.
Dentro da substância da Prajnã não há tais coisas como os dois Darmas acima mencionados e se examinado profundamente, ver-se-á que não contém nem o Darma dos Srãvakas e dos Budas Pratyekas nem o Darma dos Bodisatvas. Por que? Porque a sabedoria é a sabedoria da contemplação, que é a sabedoria das Seis Perfeições e da Mente que procura; ou seja, o sujeito. Retribuição é o fruto do Buda, o objeto procurado; ou seja, o objeto. Entretanto, no autocultivo do Bodisatva, a coisa mais importante é aquela sabedoria que consiste em libertar os seres vivos aqui embaixo com o único a propósito de alcançar o fruto do Buda lá encima. Como o plano do Buda é como o vazio e não há nada em que confiar, se para conquistar a Budeidade confia-se na mente que procura a retribuição, o resultado não será verdadeiro, visto que dentro da substância do vazio absoluto da Prajnã, não há, fundamentalmente, coisas como sabedoria e retribuição. Por isso, Buda disse: “Não há nenhuma sabedoria, nem tampouco nenhuma retribuição”. Não-retribuição é a retribuição real e última.

Por causa da não-retribuição, os Bodisatva que confiam na Prajnã-paramitã não tem nenhum obstáculo nas suas mentes, e como não tem nenhum obstáculo eles não têm medo, estão livres de conceitos opostos e alcançam o Nirvana Final”.

Como o fruto do Buda só pode ser alcançado através da não-retribuição, no seu autocultivo os Bodisatvas devem confiar na Prajnã na sua meditação. Como todas as coisas estão fundamentalmente no estado de Nirvana, se a meditação é praticada confiando-se nos sentimentos ou nos pensamentos, a mente e os objetos se ligarão mutuamente e nunca poderão ser desligados dos conseqüentes apegos, que são todos obstáculos. Se a meditação é praticada através da verdadeira sabedoria da Prajnã, uma vez que a mente e os objetos são não-existentes, todos seus contatos resultam em libertação apenas. Por isso, o Buda disse que se confiando na Prajnã a mente não encontrará nenhum obstáculo. Como a mente não encontra nenhum obstáculo não pode haver medo algum em relação ao nascimento e à morte. Conseqüentemente, o Buda disse que eles não têm medo. Como não há nenhum medo em relação ao nascimento e à morte, tampouco haverá nenhum fruto do Buda a ser alcançado, visto que, tanto o medo do nascimento e da morte como a conquista do Nirvana, são conceitos opostos.
O Sutra da Iluminação Completa (Yuan Chueh Ching) diz: “Samsara e Nirvana são como o sonho de ontem”. Entretanto, sem a contemplação perfeita através da Prajnã é impossível extinguir esses conceitos opostos. Se eles não podem ser extintos é impossível alcançar o Nirvana último.
Nirvana significa serenidade e interrupção do ciclo de reencarnação ou serenidade perfeita; em outras palavras, a extinção completa das cinco condições fundamentais do apego e da delusão (1] conceitos equivocados que são comuns no Triloka ou Mundo Tríplice; 2] apego ao plano do desejo; 3] apego ao plano da forma; 4] apego ao plano da não-forma, que ainda é mortal; e, 5] estado de ignorância no Triloka que é a raiz que causa todas as desgraças e delusões), a extinção do sofrimento e a felicidade eterna na serenidade. Esse era o retorno do Buda ao Fruto Supremo. Isto significa que somente desfazendo-se de todos os sentimentos em relação aos santos e pecadores, pode experimentar-se a entrada no Nirvana. O autocultivo do Bodisatva, realizado através de qualquer outro método, não estará correto.

“Todos os Budas do passado, presente e futuro obtiveram a visão completa e a iluminação perfeita (annutara-samyak-sambodi) confiando na Prajnãpãramitã. Assim, nós sabemos que a Prajnãpãramitã é a grande Mantra Sobrenatural, a grande luminosa, insuperável e inigualável Mantra que verdadeiramente tem o poder de acabar com todos os sofrimentos sem exceção”.

Não somente os Bodisatvas praticaram de acordo com a Prajnã, como também os Budas dos três períodos do tempo exercitaram-na para obter o fruto da mais perfeita e correta iluminação. Por isso, o Buda disse que todos os Budas dos três períodos do tempo acreditaram na Prajnãpãramitã para obter annutara-samyak-sambodi, que significa: a(n), não; uttara, superável; samyak, universalmente correto; e, sambodi, iluminação perfeita., É a expressão definitiva para o fruto do Buda.
Tudo isto mostra que a Prajnãpãramitã pode afastar para longe o demônio da desgraça (klésa) no mundo (Samsara) e daí a Mantra Sobrenatural. Como pode acabar com a obscuridade da ignorância, a causa do nascimento e da morte, é chamada a grande Mantra luminosa. Como não há nenhum Darma mundano ou supramundano que possa superá-lo, é chamada a Mantra insuperável. Como a Prajnã permite que todas as mães do Buda produzam méritos ilimitados e como nenhuma coisa mundana ou supramundana pode igualar-se a ela, é chamada a Mantra inigualável.
A chamada Mantra (Mantra ou Darani: um encantamento; fórmula mística empregada na Ioga) não é uma coisa diferente e separada, mas justamente esta Prajnã. Já foi chamada a Prajnã; por que então é chamada também a Mantra? Isto é apenas para mostrar a velocidade do seu poder sobrenatural, como uma ordem secreta dada aos soldados de um exército, que pode assegurar a vitória se é cumprida em silêncio. A Prajnã pode acabar com o exército de demônios no mundo (Samsara) e é como o néctar (amrta) que permite ao bebedor alcançar a imortalidade. Aqueles que a provam podem dissipar os maiores desastres causados pelo nascimento e pela morte. Por isso, Buda disse: “Pode eliminar todos os sofrimentos” Quando Ele disse que é verdadeira e sem falha, Ele quis dizer que as palavras do Buda não mentem e que os homens leigos não devem guardar nenhuma dúvida em relação à Mantra e devem praticá-la de acordo.

Então Ele pronunciou a Mantra Prajnã-paramitã, que diz:
“Gate, gate, paragate, parasamgate Bodi Svaha!”


Como a Prajnã tem, realmente, o poder de eliminar o sofrimento e trazer a felicidade, a Mantra foi ensinada de forma que os seres vivos pudessem repeti-la em silêncio para alcançar o poder.
(Os mestres indianos que vieram para a China para traduzir os Sutras do Sânscrito para o Chinês, não revelaram o significado das mantras. Esta Mantra, significa: Oh Sabedoria que tem ido, ido, ido para a outra margem, ido além da outra margem - Svaha! Como “esta margem” e “a outra margem” são um dos pares de opostos, esse par de opostos é eliminado na última parte da mantra, “ido além da outra margem”, que revela a condição absoluta da Prajnã).
Isto é Sânscrito. Antes de esta Mantra ser revelada, a Prajnã era ensinada exotericamente e a partir de agora seria ensinada esotericamente. Aqui não havia lugar para a racionalização e interpretação, mas a silenciosa repetição da Mantra permitia o rápido efeito do poder inconcebível através da extinção de todos os sentimentos e da eliminação de todas as interpretações. Esta Prajnã, que permitiu esta rápida realização, é a luz da mente que cada ser humano possui, e é realizada por todos os Budas através de seus poderes sobrenaturais e de seus atos maravilhosos. Os seres vivos, que estão deludidos, usam-na para criar aflições (klésa) por causa do seu pensamento equivocado. Embora eles a usem diariamente, eles não têm ciência dela. Assim, desconhecendo sua própria realidade fundamental, eles prosseguem suportando todo tipo de sofrimento. Não é uma pena? Se eles pudessem acordar instantaneamente para o seu si-mesmo, eles iriam virar a luz para dentro sobre eles mesmos. No tempo que demora um pensamento, através do autocultivo, todas as barreiras do apego neste mundo (Samsara) serão rompidas, como a luz de uma lâmpada que ilumina um quarto que permaneceu na obscuridade durante mil anos. Assim, não há necessidade de recorrer a nenhum outro método.
Se na nossa determinação de livrar-nos do Samsara nós não usarmos a Prajnã, não haverá nenhum outro meio. Por essa razão é dito que no meio do oceano de sofrimento, a Prajnã é a barca, e na obscuridade da ignorância, a Prajnã é a luz.
Os homens leigos estão trilhando um caminho perigoso e estão à deriva num oceano de amargura, e mesmo assim não querem procurar a Prajnã. Realmente é impossível adivinhar suas intenções! A Prajnã é como uma espada tão afiada que corta todas as coisas que toca sem que elas se apercebam que estão sendo cortadas. Quem, senão os Sábios e os Santos, podem fazer uso dela? Certamente, não os ignorantes!

Um comentário:

  1. Parabéns pelo seu ótimo trabalho, visando ajudar a iluminar a vida de pessoas que vivem com o budismo´mas que não o conhecem de verdade!

    um grande beijo

    da sua filha anna

    ResponderExcluir